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Hipersensibilidade, hipossensibilidade e como identificá-las


O processamento sensorial é a forma como o cérebro recebe, organiza e responde aos estímulos do ambiente. Isso inclui sons, luzes, texturas, movimentos, cheiros, sabores e até sensações internas do corpo. 

Muitas crianças autistas apresentam diferenças nesse processamento, podendo reagir de forma mais intensa ou menos intensa aos mesmos estímulos. Essas diferenças podem ser classificadas principalmente como hipersensibilidade ou hipossensibilidade.

Entender essas características ajuda o cuidador a interpretar comportamentos que, à primeira vista, podem parecer “estranhos”, mas que fazem sentido quando vistos como reações a sensações desconfortáveis ou insuficientes.

O que é hipersensibilidade

Hipersensibilidade é quando a criança percebe determinados estímulos como mais fortes ou incômodos do que eles realmente são.

Para ela, um toque leve pode parecer doloroso; um cheiro suave pode parecer muito forte; um som baixo pode parecer ensurdecedor.

A criança pode reagir com medo, irritação, choro, fuga ou recusa diante de situações comuns, porque seu corpo realmente interpreta o estímulo como exagerado.

Exemplos de hipersensibilidade:

  • Tapar os ouvidos quando alguém fala alto ou quando há barulhos inesperados.
  • Evitar roupas com etiquetas ou texturas ásperas.
  • Desviar o olhar de luzes fortes ou do sol.
  • Recusar certos alimentos por causa do cheiro ou da textura.
  • Evitar ser tocada, abraçada ou beijada.

O que é hipossensibilidade

Hipossensibilidade é o oposto: a criança percebe estímulos de forma mais suave, como se fossem fracos demais.

Por isso, ela pode buscar sensações intensas para sentir mais o ambiente ou o próprio corpo.

Essas ações não são “manias”, mas tentativas de autorregulação, ou seja, de encontrar o nível de estímulo que o corpo está pedindo.

Exemplos de hipossensibilidade:

  • Procurar apertar objetos com força ou pedir abraços fortes.
  • Procurar girar, balançar ou correr repetidamente.
  • Tocar ou cheirar tudo ao redor.
  • Não reagir a dor com a mesma intensidade que outras crianças.
  • Colocar objetos na boca mesmo após a idade esperada de deixar essa fase.

Por que é importante identificar essas diferenças

Quando o cuidador compreende as necessidades sensoriais da criança, fica mais fácil ajustar o ambiente, prevenir crises e oferecer alternativas seguras de autorregulação.

Ao identificar padrões, também é possível ajudar profissionais de saúde a escolher intervenções mais adequadas.

Como identificar hipersensibilidade e hipossensibilidade na prática

A observação diária é uma das estratégias mais eficazes. O cuidador que convive com a criança percebe sinais que muitas vezes passam despercebidos em consultas rápidas.

A seguir, pontos importantes para observar:

1. Observe as reações aos estímulos do ambiente

Veja como a criança responde a sons, luzes, cheiros, movimentos, toques e sabores.

Algumas perguntas úteis:

  • Ela se assusta facilmente com barulhos?
  • Ela evita alguns tipos de roupas ou texturas?
  • Ela prefere ambientes mais escuros ou silenciosos?
  • Ela busca movimentos intensos, como pular e girar?
  • Ela parece “não sentir” dor ou frio em algumas situações?

2. Analise o contexto

A mesma reação não acontece sempre.

Perceber quando e onde os comportamentos surgem ajuda a diferenciar comportamentos sensoriais de respostas emocionais.

Exemplo: a criança que sempre cobre os ouvidos em supermercados pode estar reagindo ao excesso de sons e não a um medo específico.

3. Registre comportamentos repetidos

Manter anotações simples, como pequenos relatos diários, ajuda a identificar padrões.

Com o tempo, fica claro quais estímulos são mais difíceis e quais ajudam a criança a se organizar.

4. Compare estímulos e reações

Às vezes, a criança é hipersensível para um sentido e hipossensível para outro.

Por isso, é importante observar todos os canais sensoriais:

  • Auditivo (som)
  • Visual (luz, movimento)
  • Tátil (toque, texturas)
  • Gustativo e olfativo (cheiro e sabor)
  • Proprioceptivo (percepção do corpo)
  • Vestibular (equilíbrio e movimento)

5. Considere a duração e intensidade

Se a reação é muito intensa, frequente e interfere na rotina, provavelmente existe uma diferença importante no processamento sensorial.

O papel do cuidador

O cuidador é a pessoa que mais convive com a criança e, por isso, tem um papel central na identificação das diferenças sensoriais. Ele pode:

  • Adaptar o ambiente para reduzir incômodos.
  • Oferecer estímulos que ajudem a criança a se regular.
  • Comunicar observações a terapeutas e profissionais da saúde.
  • Apoiar a criança em momentos de sobrecarga sensorial.

Com essa compreensão, as intervenções se tornam mais humanas, funcionais e respeitosas, ajudando a criança a se sentir mais segura e confortável em seu cotidiano.

Este artigo pertence ao Curso Cuidador de Criança Autista

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